domingo, 8 de dezembro de 2013

Luzes de Natal


Outro dia estava passando por uma  bela avenida da cidade. Reparei que ela já estava enfeitada com as luzes natalinas; Em  frente ao prédio de uma grande empresa,pessoas se reuniam, havia música e alegria. Curiosa que sou, perguntei a uma pessoa   o que estava acontecendo. Ela então  me informou que dentro de poucos instantes, aconteceria a inauguração das luzes de Natal, que Papai Noel estava presente e mais ainda, que  o coral faria uma bela apresentação. Adoro música e nesta época principalmente, tudo me emociona. Perguntei àquele gentil senhor se eu poderia participar do evento e ele  me disse  que era aberto ao público, e que todos eram muito bem-vindos. Entrei, procurei um lugar para me assentar e fiquei observando a movimentação em volta. Muitas crianças, de todas as idades, algumas ainda com seus uniformes de escola. Também vi funcionários que saíam do trabalho e se ajuntavam ali mesmo, aguardando o início do evento. Percebi que, embora fosse aberto ao público, mais parecia festa de família. Aliás, era uma festa de família. Tinha pipoca, algodão doce, Papai Noel estava assentado em uma poltrona e abraçava carinhosamente todas as crianças. Também havia um delicado presépio. Gradativamente uma multidão tomou conta do local. O coral já estava a postos, esperando apenas a ordem do maestro para nos brindar com as vozes de Minas. Alguém pediu silêncio e atenção, e eles começaram a cantar. Lindamente... A seleção era das melhores: Clube da Esquina, Vangelis, Milton Nascimento...Cantavam desde música popular brasileira a clássicos de Natal, passando pela música pop, enfim, brindaram-nos com o que há de melhor. 
Papai Noel levantou-se de sua poltrona e foi para junto do coral. Balançava o sino alegremente, como se ajudando o maestro, como se ele também estivesse regendo o coral. Algumas crianças se aproximaram, receberam afagos, e a festa continuou. Alguém avisou que as luzes seriam acesas e convidaram a todos que participassem da contagem regressiva. As luzes se acenderam, a árvore de Natal, a rua e o prédio começaram a resplandecer. Aplausos, gritos, alegria...
Após, o coral continuou cantando,  maravilhosamente. Mas, nesse exato momento,  comecei a ficar triste. As pessoas aparentemente estavam ali só esperando que as luzes se acendessem. A maioria, após esse momento, deu as costas para o coral, começou a correria de crianças e poucos  continuaram ali, se deliciando com as vozes que se elevavam. Fiquei mesmo pensando que ainda falta muito para a educação do nosso povo. Pior, notei que ali havia pessoas bem vestidas, não havia ninguém maltrapilho, não havia o que muitos chamam de "povão", quando tentam dizer que é o "povão" que não sabe gostar de boa música, que perturba os ambientes e que provoca confusões.  Não.  Havia famílias inteiras, crianças bem cuidadas, bem vestidas, com uniformes de escolas particulares, algumas posso afirmar inacessíveis para pessoas da chamada classe média. As pessoas começaram a conversar, alguns gritavam por seus colegas, outros começaram a se despedir, apesar do espetáculo das vozes  que ainda cantava. Uma lástima. Em qualquer outro lugar as pessoas certamente não agiriam desse jeito. Era música, música de boa qualidade, espetáculo gratuito para o deleite de nossos ouvidos e aquelas pessoas estavam ali, indiferentes, poucas usufruíam realmente do momento. Finalmente o maestro anunciou que cantariam a última música. Fiquei com a impressão de que ele só estava finalizando a apresentação devido à indelicadeza de alguns presentes. Quis falar para ele que continuasse, que eu e outros ainda estávamos ali, emocionados, agradecidos por aquele momento de grande beleza. Mas não tive coragem. Eu era uma estranha naquele lugar e estava ali graças à gentileza de um desconhecido. Saí dali apreciando as luzes, mas com um grande vazio.  Penso que precisamos urgentemente rever nossos valores. De que adianta carro do ano, morar bem, vestir-se bem, colocar os filhos nas melhores escolas se não conseguimos nem educar nossos ouvidos? Se não possuímos a delicadeza dos gestos? De que adianta falarmos em espirito de Natal se o que queremos mesmo é a troca de presentes?  Minha utopia é que este Natal, seja momento não somente de troca de presentes, de mesa farta, de luzes que enfeitam.... As pessoas andam precisando refletir mais, pois nosso mundo aparentemente caminha para o caos. E ai, será tarde demais. A música cessará definitivamente. Não mais teremos condições para ouvir ou sermos ouvidos, não mais presentes, luzes, alegria, festa do encontro. Será que ainda teremos tempo para mudar? Tomara...